Uma das primeiras perguntas de quem pesquisa sobre tratamento com cannabis medicinal é sobre preço — e é comum a resposta parecer evasiva, do tipo "depende". Isso não é falta de transparência: o custo total realmente varia bastante de caso para caso, porque ele é a soma de etapas distintas, cada uma com sua própria lógica de preço. Entender cada uma delas ajuda a planejar melhor o orçamento antes de começar.
A consulta médica é o primeiro custo
O ponto de partida do tratamento é a consulta médica — hoje, na maioria dos casos, feita por telemedicina, com base na Resolução CFM nº 2.314/2022. O valor dessa consulta varia de clínica para clínica, assim como acontece com qualquer especialidade médica, e cobre a avaliação clínica em si, não o produto que pode ou não ser prescrito ao final. Vale lembrar que a prescrição não é garantida: o médico avalia o histórico e o quadro do paciente antes de decidir se o tratamento é indicado, como já explicamos em outro post sobre quando o médico pode negar a receita.
A Autorização de Importação da Anvisa não tem taxa
Um ponto que costuma surpreender: o próprio pedido de Autorização de Importação (AI) feito junto à Anvisa é gratuito. Não existe uma taxa cobrada pela agência para analisar e conceder esse documento — o cadastro é feito pelo portal do governo federal, com a prescrição médica e os documentos pessoais do paciente. O custo do tratamento não está nessa etapa, e sim nas que vêm depois.
A compra do produto no exterior
Com a AI aprovada, o paciente (ou seu representante) pode comprar o produto diretamente do fornecedor no exterior, geralmente uma farmácia ou distribuidor especializado no país de origem. Esse é normalmente o maior componente do custo total, e o valor depende do produto especificamente prescrito — concentração, apresentação e fabricante —, além da quantidade autorizada para aquele período de tratamento. Como o valor está ligado à prescrição individual, não existe um número genérico que sirva de referência confiável para todo mundo; ele só aparece depois da consulta e da definição do produto pelo médico.
Frete internacional e despachante aduaneiro
Depois da compra, entram os custos de logística: o frete internacional, cobrado pelo serviço de courier especializado em remessas farmacêuticas, e — quando contratado — o serviço do despachante aduaneiro, profissional que cuida do trâmite de liberação na Receita Federal. Já detalhamos essas etapas em outro post, mas do ponto de vista do orçamento vale saber que esses dois valores somam-se ao preço do produto e variam conforme o país de origem, a transportadora escolhida e se o despachante é contratado de forma pontual ou recorrente, para quem já faz importações repetidas.
Impostos de importação
Sobre a remessa incidem, em geral, impostos federais aplicáveis a importações — como o Imposto de Importação — além de eventual ICMS estadual, que varia de unidade federativa para unidade federativa. Alguns estados têm processos de isenção de ICMS para importação de uso pessoal mediante comprovação médica, mas as regras mudam de estado para estado e podem ser atualizadas, então a orientação mais segura é confirmar a situação vigente na sua unidade federativa em vez de usar como referência o que valeu para outro paciente em outro lugar.
E o plano de saúde entra nessa conta?
Na maioria dos casos, não. Produtos de cannabis medicinal costumam ser classificados como medicamentos de uso domiciliar, fora da cobertura obrigatória dos planos de saúde — assunto que já detalhamos em outro post. Por isso, o mais realista é considerar o tratamento, de forma geral, como um custo particular ao montar o orçamento, e não presumir reembolso como parte do plano.
Farmácia nacional pode custar diferente da importação
Nem todo produto de cannabis medicinal passa pelo caminho da importação. Alguns já têm registro sanitário no Brasil e são vendidos em farmácia com receita comum — um caminho com lógica de custo bem diferente, sem frete internacional, despachante ou impostos de importação. Qual caminho se aplica ao seu caso depende do produto que o médico considerar mais adequado, não de uma escolha livre do paciente; explicamos essa diferença com mais detalhe aqui.
Por que vale conversar sobre custo já na consulta
Como o produto prescrito influencia diretamente boa parte dessas etapas — se vai haver importação ou não, qual a quantidade autorizada, com que frequência será necessário repetir o processo —, vale trazer a questão do orçamento para a própria consulta médica. Isso não muda a decisão clínica, que continua sendo do médico com base no quadro do paciente, mas ajuda a alinhar expectativas desde o início. Quem quiser entender melhor esse processo antes de decidir pode agendar uma consulta pela plataforma.
Este conteúdo tem caráter informativo sobre um aspecto prático do tratamento e não substitui uma consulta médica ou orientação profissional específica. Cada caso deve ser avaliado individualmente por um profissional habilitado.