Marcar uma cirurgia já vem com um roteiro conhecido: exames pré-operatórios, jejum, suspensão de alguns medicamentos por conta do risco de sangramento ou de interação. Quem trata com cannabis medicinal costuma se perguntar se esse tratamento também entra nessa lista — e se vale a pena mencionar algo que, para muitos pacientes, ainda carrega um certo desconforto em declarar. A resposta curta é: sim, vale e é importante informar. Entender o porquê ajuda a levar essa informação com mais naturalidade para a consulta pré-operatória.
Por que a equipe cirúrgica precisa saber
Qualquer substância que o corpo processa pode, em tese, interferir na forma como ele responde à anestesia — e produtos à base de cannabis não são exceção. Estudos sobre o tema vêm indicando que o uso de canabinoides pode alterar a quantidade de anestésico necessária durante o procedimento e influenciar como o paciente responde à sedação. Isso não quer dizer que cannabis medicinal impeça uma cirurgia ou torne o procedimento mais arriscado de forma automática — significa que é uma variável que o anestesista precisa conhecer antes, não descobrir durante.
Essa lógica é a mesma que já vale para outros medicamentos e suplementos: quanto mais completa a informação levada à avaliação pré-operatória, mais precisa é a condução do caso. Omitir o uso de cannabis medicinal não elimina a variável — só tira da equipe médica a chance de planejar em torno dela.
O que costuma ser perguntado na avaliação pré-operatória
Na consulta com o anestesista, antes de qualquer cirurgia, geralmente são levantadas informações como:
- Quais produtos de cannabis medicinal são usados (óleo, cápsula, outro formato);
- Composição predominante do produto (CBD, THC ou associação dos dois);
- Frequência e período do último uso antes do procedimento;
- Outros medicamentos em uso concomitante, especialmente sedativos ou anticoagulantes.
Com essas informações, a equipe responsável pela anestesia decide, caso a caso, se é necessário algum ajuste na condução do procedimento — como adequar doses ou organizar o período de suspensão antes da cirurgia. Essa decisão é sempre clínica e individual: não existe uma regra genérica de "suspender por tantos dias" que sirva para todo paciente, porque isso depende do tipo de produto, do procedimento cirúrgico e do quadro de saúde de cada um.
Quem avisar, e quando
Vale comunicar o uso de cannabis medicinal tanto ao cirurgião quanto ao anestesista responsável pelo procedimento — nem sempre são as mesmas pessoas que acompanham o tratamento continuado, e é comum que a cirurgia seja conduzida por uma equipe diferente da que acompanha o caso na telemedicina. Quando possível, o ideal é levar essa informação já na primeira consulta pré-operatória, e não deixar para mencionar só no dia do procedimento — isso dá tempo para que qualquer ajuste necessário seja planejado com antecedência, em vez de decidido de última hora.
Também é uma boa prática informar o médico que acompanha o tratamento com cannabis medicinal sobre a cirurgia marcada. Ele pode orientar sobre a melhor forma de conduzir o uso do produto nesse período e, se for o caso, alinhar diretamente com a equipe cirúrgica. Se você ainda não tem uma consulta de retorno marcada e uma cirurgia está próxima, vale a pena agendar uma consulta com antecedência para tratar especificamente desse ponto.
Não é motivo para constrangimento
É comum que pacientes hesitem em mencionar o uso de cannabis medicinal por medo de julgamento ou por associarem o tema a um estigma que não se aplica ao tratamento prescrito e autorizado pela Anvisa. Do ponto de vista da equipe médica, essa informação é tratada como qualquer outro dado clínico relevante — parte do raciocínio técnico para garantir uma anestesia segura, e não um julgamento sobre a escolha do tratamento. Omitir esse dado por desconforto tende a gerar mais risco do que a própria informação.
Cada cirurgia, cada produto e cada histórico de saúde pedem uma avaliação própria, e é exatamente para isso que existe a etapa de avaliação pré-operatória — tanto quanto o acompanhamento contínuo do tratamento com cannabis medicinal.
Este conteúdo tem caráter informativo sobre a importância de informar o uso de cannabis medicinal antes de procedimentos cirúrgicos e não substitui uma consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente por um profissional habilitado.